Se você sente cólicas que não passam com analgésico, dor pélvica que se repete ou desconforto durante a relação sexual, é provável que já tenha se perguntado se isso é “normal”. A verdade é que, em muitos casos, não é. Quando esse quadro se repete, a endometriose está entre as hipóteses que uma ginecologista precisa investigar — e entender o que está acontecendo é o primeiro passo.
A endometriose é uma das queixas mais comuns no consultório de ginecologia, e a boa notícia é que, com o diagnóstico certo, ela tem tratamento eficaz e controlável.
Neste artigo você vai entender o que é a endometriose, por que ela causa dor, como reconhecer os sinais, quais exames confirmam o diagnóstico e o que fazer — e, principalmente, quando vale procurar uma ginecologista. Você também pode conhecer melhor o tema da infertilidade, que está diretamente ligado a essa condição.
O que é a endometriose?
A endometriose é uma doença caracterizada pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio — a camada que reveste o útero — fora da cavidade uterina. Esse tecido pode se implantar nos ovários, nas tubas uterinas, no peritônio e em outros órgãos da pelve, segundo o Ministério da Saúde (Ministério da Saúde, [s. d.]).
O Ministério da Saúde estima que a doença atinja entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva (Ministério da Saúde, [s. d.]). Em escala mundial, a Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que cerca de 10% das mulheres nessa faixa — aproximadamente 190 milhões — convivem com a endometriose (Organização Mundial da Saúde, 2025). No Brasil, a FEBRASGO estima que a doença afeta uma em cada dez mulheres em idade fértil (FEBRASGO, 2025). São números expressivos, mas que ainda passam despercebidos por muitas mulheres.
Durante o ciclo menstrual, esse tecido reage aos hormônios como se ainda estivesse dentro do útero. Ele sangra e inflama, mas o sangue não tem por onde sair. Isso gera dor, inflamação e, com o tempo, pode formar cistos e aderências.
A doença é benigna, mas é crônica e pode interferir em várias áreas da vida, incluindo a saúde mental, a vida sexual, as relações pessoais e o trabalho, conforme aponta o Ministério da Saúde (Ministério da Saúde, [s. d.]). Por isso, o reconhecimento precoce é tão importante.
O que causa a endometriose?
A causa exata da endometriose ainda não é totalmente conhecida. A explicação mais aceita é a menstruação retrógrada, em que parte do sangue menstrual volta pelas tubas e se implanta na cavidade pélvica. Outros fatores, como genética e resposta imunológica, também podem estar envolvidos.
Alguns fatores aumentam o risco de desenvolver a doença. Ter história familiar de endometriose, ciclos menstruais curtos, fluxo intenso e início precoce da menstruação são situações que merecem atenção, segundo as diretrizes da ESHRE, a sociedade europeia de reprodução humana (ESHRE, 2022).
É importante entender que a endometriose não é causada por comportamento ou estilo de vida. Não há culpa envolvida. O que existe é uma predisposição que, somada a fatores biológicos, pode levar ao desenvolvimento da doença.
Quais são os sintomas da endometriose?
Os sintomas da endometriose variam muito de mulher para mulher. Algumas apresentam quadros leves, enquanto outras sentem dores intensas que comprometem a rotina. Entre os principais sintomas, o Ministério da Saúde destaca (Ministério da Saúde, [s. d.]):
- Dismenorreia, ou cólica menstrual intensa, que muitas vezes não melhora com analgésicos comuns;
- Dor pélvica crônica, que pode ocorrer em qualquer fase do ciclo;
- Dispareunia, que é a dor durante a relação sexual;
- Infertilidade, ou dificuldade para engravidar;
- Queixas intestinais e urinárias com padrão cíclico, como dor ao evacuar ou ao urinar no período menstrual.
A FEBRASGO sintetiza esses sinais clássicos nos chamados “6 Ds” — dismenorreia, dispareunia, disquesia, disúria, dificuldade para engravidar e dor pélvica (FEBRASGO, 2025).
Um detalhe clínico importante: a intensidade da dor nem sempre corresponde à gravidade da doença. Algumas mulheres com endometriose extensa sentem pouca dor, e outras com lesões pequenas sentem muita dor. Por isso, o quadro clínico precisa ser avaliado por uma ginecologista.
Um estudo brasileiro com 237 mulheres atendidas em dois hospitais de referência no Rio de Janeiro encontrou a endometriose profunda infiltrativa e o endometrioma (cisto ovariano) entre as formas mais frequentes, presentes em 87% dos casos, além de associações entre sintomas como dismenorreia, dispareunia e infertilidade e a localização das lesões (Perfil epidemiológico de mulheres com endometriose, 2020).
Se a cólica for o sintoma dominante, vale conferir também o nosso artigo sobre cólica menstrual forte, que aprofunda as causas desse desconforto.
Como é feito o diagnóstico da endometriose?
O diagnóstico da endometriose começa com uma conversa detalhada sobre os seus sintomas e com o exame ginecológico. O Ministério da Saúde recomenda que o diagnóstico seja considerado na presença de dismenorreia, dor pélvica crônica, dor profunda na relação sexual, dor ao evacuar ou ao urinar e sangramento retal (Ministério da Saúde, [s. d.]).
Os exames de imagem são fundamentais para complementar a avaliação. O ultrassom transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética da pelve ajudam a identificar lesões, cistos e a extensão da doença. A FEBRASGO descreve três apresentações — superficial, ovariana e profunda —, sendo a profunda definida por lesões que penetram mais de cinco milímetros no peritônio (FEBRASGO, 2018).
A FEBRASGO considera o ultrassom transvaginal com preparo intestinal um método de primeira linha no diagnóstico e no mapeamento da endometriose, especialmente da forma profunda (FEBRASGO, 2018). A ressonância magnética complementa a avaliação quando há suspeita de comprometimento de órgãos vizinhos.
Em alguns casos, a confirmação é feita por videolaparoscopia, um procedimento cirúrgico minimamente invasivo que permite visualizar e, se necessário, tratar as lesões. As diretrizes atuais da ESHRE, com 109 recomendações publicadas em 2022, no entanto, reforçam que a laparoscopia não precisa ser o primeiro passo e que o diagnóstico clínico associado aos exames de imagem costuma ser suficiente para iniciar o tratamento (ESHRE, 2022).
O tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico ainda é longo. O Ministério da Saúde aponta que a média chega a sete anos. Estudos brasileiros, como o publicado na revista Einstein, encontraram uma média de cerca de 3,8 anos (Santos et al., 2012). Quanto antes a endometriose é identificada, antes o tratamento eficaz pode começar e menor é o impacto na qualidade de vida.
Como é feito o tratamento da endometriose?
O tratamento da endometriose tem dois objetivos principais: aliviar a dor e preservar ou restaurar a fertilidade. A escolha da conduta é individualizada e depende dos sintomas, da extensão da doença e do desejo de engravidar.
O tratamento clínico é a primeira opção na maioria dos casos. Ele inclui medicamentos para dor e terapia hormonal, que reduzem a atividade do tecido endometriótico e controlam os sintomas. A FEBRASGO destaca que o tratamento hormonal é eficaz no controle da dor pélvica e deve ser considerado na ausência de indicações para cirurgia (FEBRASGO, 2025).
A cirurgia, geralmente por videolaparoscopia, é indicada quando o tratamento clínico não é suficiente, quando há endometriomas ovarianos ou quando a doença compromete outros órgãos (FEBRASGO, 2018). O objetivo da cirurgia é remover as lesões e preservar ao máximo os órgãos reprodutivos.
É importante reforçar: a endometriose não tem cura, mas tem tratamento eficaz. O acompanhamento é contínuo, e o plano de cuidado pode mudar ao longo da vida, especialmente em relação ao desejo de engravidar.
Dá para prevenir a endometriose?
Não existe, hoje, uma medida comprovada que impeça o surgimento da endometriose. A doença tem raízes genéticas, imunológicas e hormonais, e não é resultado de comportamento, alimentação específica ou descuido com a saúde.
O que está ao seu alcance é o que chamamos de prevenção secundária: identificar os sintomas cedo, investigar a causa da dor e manter o acompanhamento em dia. Quanto menos tempo a doença passa sem controle, menor é o impacto na dor, na rotina e na fertilidade.
Vale lembrar que o uso ou a interrupção de métodos hormonais não deve ser decidido por conta própria, como forma de prevenir ou tratar a endometriose. Essa escolha precisa ser feita com uma ginecologista, considerando os seus sintomas, o seu histórico e o seu desejo de engravidar.
A endometriose causa infertilidade?
A endometriose é uma das causas mais comuns de dificuldade para engravidar. O processo inflamatório que ela provoca na pelve pode levar à formação de aderências e afetar a função dos ovários e das tubas, conforme explica a FEBRASGO (FEBRASGO, 2017). Segundo a sociedade, os mecanismos envolvem distorção da anatomia tubária, redução da qualidade dos óvulos e resistência à progesterona (FEBRASGO, 2017).
Isso não significa que a gravidez seja impossível. Muitas mulheres com endometriose engravidam espontaneamente ou com auxílio de tratamentos de reprodução assistida, como a fertilização in vitro. A conduta depende da idade, da extensão da doença e de outros fatores de fertilidade.
Se você está tentando engravidar e tem endometriose, o acompanhamento com uma ginecologista especializada é essencial para planejar o melhor momento e a melhor estratégia. Cada caso é único e merece uma avaliação individual. Você pode conhecer melhor esse caminho na nossa página sobre infertilidade.
Quais são as possíveis complicações?
Quando não é tratada, a endometriose pode evoluir e trazer complicações. A mais conhecida é a dificuldade para engravidar, que já vimos. Mas a doença também pode levar à formação de endometriomas, os chamados cistos de chocolate nos ovários, e de aderências que comprometem os órgãos da pelve, conforme aponta a FEBRASGO (FEBRASGO, 2018).
Em casos de endometriose profunda, as lesões podem atingir órgãos vizinhos, como o intestino e a bexiga. Isso pode causar dor ao evacuar ou ao urinar, especialmente no período menstrual. Por isso, o acompanhamento regular com a ginecologista é essencial para monitorar a evolução do quadro e ajustar o tratamento quando necessário.
É importante destacar que a endometriose é uma doença benigna. A chance de transformação maligna é muito baixa. Ainda assim, o acompanhamento ginecológico regular é importante para monitorar o quadro e tratar os sintomas de forma adequada.
Endometriose e qualidade de vida
A endometriose vai além da dor física. Por ser uma doença crônica e dolorosa, ela pode comprometer a produtividade no trabalho, as relações pessoais e o bem-estar emocional (Organização Mundial da Saúde, 2025). Muitas mulheres relatam faltas frequentes ao trabalho e dificuldade para manter a rotina durante os episódios de dor.
Esse impacto reforça a importância do diagnóstico precoce e do tratamento adequado. Controlar os sintomas não melhora apenas o desconforto físico — melhora a qualidade de vida como um todo. Por isso, conviver com dor não precisa ser a regra.
Quando procurar o ginecologista
Você não precisa conviver com dor. Procure uma ginecologista se você tem:
- Cólica menstrual que impede suas atividades;
- Dor pélvica que se repete em qualquer fase do ciclo;
- Dor durante a relação sexual;
- Dor ao evacuar ou ao urinar, especialmente no período menstrual;
- Dificuldade para engravidar.
O diagnóstico precoce faz diferença. Ele permite iniciar o tratamento eficaz antes que a doença avance e reduz o impacto na sua qualidade de vida. Se os sintomas se repetem, vale uma avaliação.
Se você está em Taquara/RS ou região e quer avaliação com atendimento acolhedor e exclusivamente particular — presencial ou online —, a Dra. Daniela Correia está disponível para te atender e investigar o que está acontecendo com método, do sintoma à causa.
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Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não substitui avaliação médica individual. Em caso de sintomas, procure um profissional qualificado.
Conteúdo revisado pela Dra. Daniela Correia — CRM-RS 48224 | RQE 37922.
Referências
ESHRE. Guideline: Endometriosis (2022). [S. l.: s. n.], 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35350465. Acesso em: 11 set. 2026.
FEBRASGO. Aplicações da Ultrassonografia no diagnóstico da Endometriose. FEBRASGO, 2018. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/noticia/aplicacoes-da-ultrassonografia-no-diagnostico-da-endometriose/. Acesso em: 11 set. 2026.
FEBRASGO. Endometriose e FIV. FEBRASGO, 2017. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/noticia/endometriose-e-fiv. Acesso em: 11 set. 2026.
FEBRASGO. Endometriose: doença afeta uma em cada dez mulheres em idade fértil no Brasil. FEBRASGO, 2025. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/noticia/endometriose-doenca-afeta-uma-em-cada-dez-mulheres-em-idade-fertil-no-brasil. Acesso em: 11 set. 2026.
FEBRASGO. Ressonância Magnética na avaliação da endometriose. FEBRASGO, 2018. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/noticia/ressonancia-magnetica-na-avaliacao-da-endometriose. Acesso em: 11 set. 2026.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Endometriose. Ministério da Saúde, [s. d.]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/e/endometriose. Acesso em: 11 set. 2026.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose. Ministério da Saúde, [s. d.]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/e/endometriose. Acesso em: 11 set. 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Endometriosis (folha informativa). Organização Mundial da Saúde, 2025. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/endometriosis. Acesso em: 11 set. 2026.
Perfil epidemiológico de mulheres com endometriose. SciELO, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbsmi/a/VvLYZ9XdYDsLjYvYgh9GmgG?lang=pt. Acesso em: 11 set. 2026.
SANTOS et al. Tempo transcorrido entre o início dos sintomas e o diagnóstico de endometriose. SciELO Einstein, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/eins/a/Mt9Vs8GmWrXMZK5qSZtyZRw?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 11 set. 2026.
Perguntas frequentes
Endometriose tem cura?
Não se fala em cura, mas sim em tratamento eficaz. A endometriose é uma doença crônica e o objetivo do tratamento é controlar os sintomas, aliviar a dor e preservar a fertilidade, com acompanhamento contínuo.
Endometriose causa infertilidade?
A endometriose pode dificultar a gravidez, mas não significa infertilidade definitiva. O processo inflamatório pode afetar a função dos ovários e das tubas. Muitas mulheres conseguem engravidar com tratamento adequado ou reprodução assistida.
Quais são os primeiros sintomas da endometriose?
Os mais comuns são cólica menstrual intensa, dor pélvica crônica, dor durante a relação sexual e queixas intestinais ou urinárias que pioram no período menstrual. Se esses sintomas se repetem, vale uma avaliação.
Como é feito o diagnóstico de endometriose?
O diagnóstico começa pela avaliação clínica e é complementado por exames de imagem, como ultrassom transvaginal com preparo intestinal e ressonância magnética da pelve. A confirmação pode ser feita por videolaparoscopia quando indicada.
Endometriose tem tratamento definitivo?
O tratamento é eficaz para controlar o quadro, mas a doença é crônica e pode exigir acompanhamento de longo prazo. As opções incluem tratamento hormonal, medicamentos para dor e, em alguns casos, cirurgia.
Endometriose pode virar câncer?
A endometriose é uma doença benigna. A chance de transformação maligna é muito baixa, mas o acompanhamento ginecológico regular é importante para monitorar o quadro e tratar os sintomas.
Quando devo procurar uma ginecologista por causa de endometriose?
Se você tem cólica que impede atividades, dor pélvica frequente, dor na relação sexual ou dificuldade para engravidar, procure uma ginecologista. Quanto antes o diagnóstico, antes o tratamento eficaz pode começar.
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