Se você notou um corrimento diferente, com um odor característico e um pouco de desconforto, é natural se perguntar o que está acontecendo. A vaginose bacteriana é a causa mais comum de corrimento vaginal anormal em mulheres em idade reprodutiva (CDC, 2021) — e, apesar de muito frequente, ainda gera muita confusão, principalmente na hora de diferenciá-la de outras infecções.
A boa notícia é que, com o diagnóstico certo, ela tem tratamento eficaz (OMS, 2025). Neste artigo você vai entender por que ela surge, como reconhecer os sinais, quais exames confirmam o diagnóstico e — o mais importante — quando procurar um ginecologista em vez de tentar resolver sozinha.
O que é vaginose bacteriana?
A vaginose bacteriana não é uma infecção causada por um único microrganismo “invasor”. Ela é, na verdade, um desequilíbrio da flora vaginal: uma queda acentuada das bactérias protetoras — os Lactobacillus, que produzem ácido lático e peróxido de hidrogênio e mantêm o ambiente vaginal ácido — e uma proliferação excessiva de bactérias anaeróbias, como Gardnerella vaginalis, Atopobium, Prevotella e Mobiluncus (CDC, 2021).
Entender esse mecanismo muda tudo na abordagem: o tratamento não é só “eliminar uma bactéria”, é restaurar o equilíbrio da flora para que o problema não volte.
Em termos globais, uma revisão sistemática com meta-análise citada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a prevalência da vaginose bacteriana entre mulheres em idade reprodutiva varia de 23% a 29%, com diferenças conforme o país e o grupo populacional estudado (OMS, 2025).
O que causa a vaginose bacteriana?
A vaginose bacteriana tem uma associação clara com fatores que alteram a flora (CDC, 2021):
- Duchas vaginais — o fator de risco mais clássico e evitável: a lavagem interna remove os Lactobacillus protetores e altera o pH (CDC, 2021; OMS, 2025).
- Atividade sexual — parceiro novo, múltiplos parceiros ou sexo sem preservativo estão associados ao surgimento, embora a vaginose não seja considerada uma IST clássica (CDC, 2021).
- Menstruação — a prevalência da vaginose aumenta durante o período menstrual (CDC, 2021).
Perceba o ponto central: a maioria desses fatores não é “pegar” algo de outra pessoa, mas sim alterar o ambiente vaginal. É por isso que o tratamento eficaz olha para o equilíbrio da flora, e não apenas para a crise do momento.
Quais são os sintomas da vaginose bacteriana?
Os sintomas da vaginose bacteriana são característicos e, na maioria dos casos, distintos dos da candidíase (CDC, 2021; OMS, 2025):
- Corrimento acinzentado ou branco-acinzentado, mais fluido e homogêneo, aderido às paredes vaginais (CDC, 2021).
- Odor forte, tipo “peixe” — é o sinal mais marcante (CDC, 2021).
- Coceira ou irritação discreta — bem menos intensa que na candidíase; muitas mulheres nem sentem (OMS, 2025).
- Ardor ao urinar, em alguns casos (OMS, 2025).
Um detalhe clínico importante: muitas mulheres com vaginose bacteriana não apresentam sintoma algum — em uma pesquisa nacional representativa, a maioria das mulheres com o quadro era assintomática (CDC, 2021). Isso não significa que deva ser ignorado, especialmente na gravidez (veja adiante).
Vaginose, candidíase ou tricomoníase: como diferenciar?
O autodiagnóstico é uma das maiores causas de tratamento errado. Veja como as três infecções mais comuns se diferenciam (FEBRASGO, 2024; CDC, 2021):
| Característica | Vaginose bacteriana | Candidíase | Tricomoníase |
|---|---|---|---|
| Corrimento | Acinzentado, fluido, homogêneo | Branco, grumoso (“coalhado”) | Amarelado/esverdeado, bolhoso |
| Odor | Forte, “de peixe” | Ausente ou fraco | Forte e desagradável |
| Coceira | Discreta ou ausente | Intensa | Variável |
| Ardor/irritação | Discreta | Comum | Comum |
| Tipo de infecção | Bacteriana (desequilíbrio) | Fúngica | Parasitária |
Se você tem corrimento branco e grumoso com coceira intensa, vale ler o que já publicamos sobre candidíase e seus sintomas — lá explicamos como diferenciar as duas queixas mais comuns. E se o corrimento for amarelado ou esverdeado, com odor forte e bolhas, o quadro pode apontar para tricomoníase, que exige outro tipo de tratamento.
Como o diagnóstico é confirmado?
Não é possível confirmar vaginose bacteriana “pela internet” — e tratar a infecção errada é justamente o que leva a quadros que nunca resolvem. No consultório, o ginecologista avalia:
- História clínica — sintomas, odor, episódios anteriores, fatores de risco (duchas, parceiros).
- Exame ginecológico — para observar as características do corrimento e o odor.
- Aferição do pH vaginal — exame simples e rápido: pH elevado (> 4,5) é um dos critérios (CDC, 2021).
- Microscopia (exame a fresco) — análise do material ao microscópio, que identifica as “células-chave” (clue cells) características da vaginose (CDC, 2021; OMS, 2025).
- Teste de aminas (teste do KOH) — a liberação do odor de peixe ao adicionar hidróxido de potássio confirma a suspeita (CDC, 2021).
O diagnóstico costuma ser clínico e rápido, baseado nos critérios de Amsel — que exigem pelo menos três dos quatro sinais: corrimento homogêneo e fino, clue cells na microscopia, pH acima de 4,5 e odor de peixe ao teste de KOH (CDC, 2021). Tentar adivinhar pelo aspecto do corrimento em casa é o caminho mais curto para o tratamento errado.
Como é feito o tratamento?
O tratamento da vaginose bacteriana é definido pelo médico conforme o quadro e o contexto (CDC, 2021; OMS, 2025):
- Antibióticos por via oral ou vaginal — os esquemas mais utilizados são eficazes e curtos, geralmente de poucos dias: metronidazol 500 mg por via oral, duas vezes ao dia, por 7 dias; ou metronidazol gel 0,75% por via vaginal, uma vez ao dia, por 5 dias; ou clindamicina creme 2% por via vaginal, ao deitar, por 7 dias (CDC, 2021).
- Tratamento na gravidez — segue protocolo específico, pois a vaginose sintomática está associada a maior risco de parto prematuro, rotura prematura de membranas e infecção intra-amniótica. O rastreio e o tratamento na gestação devem ser conduzidos pelo médico. Sempre sob prescrição médica (CDC, 2021; OMS, 2025).
- Tratamento do parceiro — não é rotineiramente indicado, pois não reduz a recorrência na mulher (CDC, 2021). A decisão é individualizada.
Sobre o que não funciona, o alerta é direto: duchas vaginais não tratam a vaginose — e não há dados que sustentem o uso de duchas para tratamento ou alívio dos sintomas (CDC, 2021). Produtos “de higiene íntima” perfumados podem irritar a região (FEBRASGO, 2024).
O que fazer quando a vaginose volta?
A recorrência é o maior desafio da vaginose bacteriana — uma parcela significativa das mulheres apresenta novo episódio dentro de alguns meses após o tratamento. A FEBRASGO alerta que as altas taxas de recorrência estão relacionadas à formação de biofilmes e à dificuldade de reconstituir uma microbiota vaginal saudável (FEBRASGO, 2026). Quando isso acontece, a abordagem muda:
- Primeiro, é preciso confirmar o diagnóstico em cada episódio — parte das “vaginoses de repetição” na verdade são outras condições mal tratadas.
- Depois, investigar fatores predisponentes: duchas e hábitos sexuais.
- Em alguns casos, o médico indica esquemas de manutenção ou de supressão — por exemplo, metronidazol gel (0,75%) ou supositório vaginal de 750 mg, duas vezes por semana, por mais de três meses, o que foi relatado como capaz de reduzir as recorrências (CDC, 2021). Esse tipo de esquema só deve ser feito sob acompanhamento médico.
A vaginose recorrente não é algo que você precise aceitar: é um sinal de que o equilíbrio do seu corpo precisa de atenção — e isso se investiga, com método.
Vaginose bacteriana na gravidez: quais os riscos?
A gestação merece um olhar especial. A vaginose bacteriana sintomática está associada a maior risco de parto prematuro, rotura prematura de membranas, infecção intra-amniótica e endometrite pós-parto (CDC, 2021), além de problemas na gestação como parto prematuro (OMS, 2025). Por isso, o rastreio e o tratamento na gravidez seguem protocolo específico e devem ser conduzidos pelo médico — nunca por conta própria.
Se você está grávida e notou qualquer alteração no corrimento ou no odor, converse com seu obstetra. O tema do corrimento na gravidez tem particularidades próprias e merece uma avaliação dedicada.
Como prevenir a vaginose bacteriana?
A prevenção da vaginose passa, em grande parte, por respeitar o equilíbrio natural da flora vaginal. A vagina tem um mecanismo próprio de limpeza e proteção: os Lactobacillus produzem ácido lático e peróxido de hidrogênio, mantendo um ambiente ácido que dificulta a proliferação de bactérias indesejadas (CDC, 2021). Qualquer hábito que interfira nesse equilíbrio abre espaço para o problema. Na prática, o que funciona é:
- Evite duchas vaginais — este é o fator mais importante e evitável. A vagina se autolimpa; a lavagem interna só desequilibra a flora (CDC, 2021; OMS, 2025).
- Higiene íntima externa com água e sabonete neutro — nada de produtos perfumados “para higiene íntima”, que podem irritar a região (FEBRASGO, 2024).
- Uso de preservativo — reduz a associação com a atividade sexual (CDC, 2021).
- Roupas íntimas de algodão — o algodão permite melhor circulação de ar e reduz irritações (FEBRASGO, 2024), e evite permanecer com roupa molhada por longos períodos.
Sobre probióticos: existem estudos avaliando seu papel coadjuvante na saúde vaginal, mas as evidências ainda são limitadas — no geral, não há estudos que sustentem esses produtos como terapia adjuvante ou substituta no tratamento da vaginose (CDC, 2021). Se quiser incorporar, converse com seu médico — não substitua o tratamento convencional por suplementos. A base da prevenção é sempre a constância dos hábitos acima, e não soluções pontuais ou produtos milagrosos.
Quando procurar o ginecologista
Procure avaliação médica se:
- Você notou corrimento com odor forte ou alteração no aspecto — mesmo sem coceira.
- É o primeiro episódio — você ainda não sabe se é realmente vaginose.
- Os sintomas não melhoram com as orientações básicas.
- Você tem episódios repetidos.
- Você está grávida — o rastreio e o tratamento na gestação têm particularidades e devem ser conduzidos pelo médico.
Se você está em Taquara/RS ou região e quer avaliação com atendimento acolhedor e exclusivamente particular — presencial ou online —, a Dra. Daniela Correia está disponível para te atender e investigar o que está acontecendo com método, do sintoma à causa.
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Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não substitui avaliação médica individual. Em caso de sintomas, procure um profissional qualificado.
Conteúdo revisado pela Dra. Daniela Correia — CRM-RS 48224 | RQE 37922.
Referências
- CANDIDÍASE e vaginose bacteriana de repetição desafiam diagnóstico e tratamento, alerta FEBRASGO. FEBRASGO, 28 abr. 2026. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/noticia/candidiase-e-vaginose-bacteriana-de-repeticao-desafiam-diagnostico-e-tratamento-alerta-febrasgo/. Acesso em: 11 set. 2026.
- CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Bacterial vaginosis. Atlanta: CDC, 2021. Disponível em: https://www.cdc.gov/bacterial-vaginosis/about/. Acesso em: 11 set. 2026.
- CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Sexually transmitted infections treatment guidelines, 2021. MMWR Recommendations and Reports, Atlanta, v. 70, n. 4, 23 jul. 2021. Disponível em: https://www.cdc.gov/std/treatment-guidelines/STI-Guidelines-2021.pdf. Acesso em: 11 set. 2026.
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Vaginose bacteriana. Genebra: OMS, 21 nov. 2025. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/bacterial-vaginosis. Acesso em: 11 set. 2026.
- SAÚDE feminina: infecções vaginais são uma das queixas mais comuns entre as mulheres que buscam atendimento ginecológico. FEBRASGO, 05 abr. 2024. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/noticia/saude-feminina-infeccoes-vaginais-sao-uma-das-queixas-mais-comuns-entre-as-mulheres-que-buscam-atendimento-ginecologico/. Acesso em: 11 set. 2026.
Perguntas frequentes
Vaginose bacteriana é uma IST?
Não é considerada uma infecção sexualmente transmissível clássica, mas a atividade sexual está associada ao seu surgimento. Ela decorre de um desequilíbrio da flora vaginal, não da transmissão de um agente específico.
Vaginose bacteriana tem tratamento eficaz?
Sim, a vaginose bacteriana tem tratamento eficaz quando o diagnóstico é correto. O desafio é a recorrência: quando volta com frequência, é preciso investigar o que está desequilibrando a flora.
Preciso tratar meu parceiro?
Na maioria dos casos, não. O tratamento do parceiro não reduz a recorrência na mulher e não é rotineiramente indicado. A decisão é individualizada, conforme avaliação médica.
Qual a diferença entre vaginose e candidíase?
A vaginose é bacteriana (corrimento acinzentado, odor de peixe, pH elevado), enquanto a candidíase é fúngica (corrimento branco e grumoso, coceira intensa, sem odor). Os tratamentos são diferentes — por isso o diagnóstico correto é decisivo.
Vaginose bacteriana pode causar complicações na gravidez?
Sim, merece atenção especial na gestação, pois está associada a maior risco de parto prematuro. Por isso, o rastreio e o tratamento na gravidez seguem protocolo específico e devem ser conduzidos pelo médico.
O que causa a vaginose bacteriana?
Um desequilíbrio da flora vaginal: a queda das bactérias protetoras (Lactobacillus) permite a proliferação de bactérias anaeróbias. Duchas vaginais e parceiro novo ou múltiplos parceiros são fatores associados.
Vaginose bacteriana some sozinha?
Sem tratamento, o quadro pode persistir, recorrer e — especialmente na gravidez — trazer riscos. A avaliação médica é o caminho seguro.
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