O corrimento vaginal é uma das queixas mais comuns no consultório de ginecologia — e, ao mesmo tempo, uma das que mais geram dúvidas. Quase toda mulher vai experimentar algum tipo de corrimento em algum momento da vida, e na maioria das vezes isso não significa doença. Entender o que é fisiológico e o que merece atenção faz toda a diferença entre procurar ajuda no momento certo e conviver com um desconforto que poderia ser tratado.
Este artigo foi escrito com o objetivo de ajudar a reconhecer os sinais de alerta, entender as causas mais comuns (candidíase, vaginose bacteriana e tricomoníase) e saber quando procurar o ginecologista. Se você está em Taquara ou na região do Vale do Paranhana, ao final há orientações práticas sobre atendimento.
O que é corrimento vaginal e quando ele é normal
Corrimento vaginal é a secreção produzida naturalmente pela vagina e pelo colo do útero. Ele é composto por muco cervical, células descamadas, bactérias benéficas (principalmente os lactobacilos) e secreções das glândulas locais. Essa secreção tem função importante: mantém a mucosa lubrificada, limpa e protegida contra micro-organismos.
Um corrimento fisiológico costuma ter as seguintes características:
- Textura clara ou esbranquiçada, levemente viscosa
- Odor discreto ou ausente
- Quantidade que varia com o ciclo menstrual (aumenta perto da ovulação), com a excitação sexual, com o uso de anticoncepcionais e na gravidez
Ou seja: ter corrimento não é, por si só, sinal de infecção. A flora vaginal saudável tem pH levemente ácido — normalmente abaixo de 4,5, conforme o Protocolo Brasileiro para IST 2020 (Carvalho et al., 2021) —, mantido pelos lactobacilos, o que dificulta a proliferação de germes. O problema aparece quando esse equilíbrio se rompe ou quando um micro-organismo específico se multiplica além do normal.
Quais são as principais causas de corrimento vaginal anormal?
Quando o corrimento muda de cor, cheiro, consistência ou volume — ou vem acompanhado de coceira e ardência — as causas mais comuns são três: candidíase vulvovaginal, vaginose bacteriana e tricomoníase. Cada uma tem características próprias:
Candidíase vulvovaginal
- Causada por fungos do gênero Candida, em especial a C. albicans — a espécie mais frequente, segundo o CDC (Centers for Disease Control and Prevention, 2021)
- Corrimento típico: espesso, grumoso, com aspecto de “leite coalhado”, geralmente sem odor forte
- Sintomas marcantes: coceira intensa, vermelhidão e inchaço vulvar, ardência ao urinar e dor na relação sexual
- Não é uma IST na maioria dos casos: o fungo faz parte da flora vaginal e se multiplica quando o ambiente favorece (Organização Mundial da Saúde, 2025)
- Fatores que favorecem: uso recente de antibióticos, diabetes descompensada, gravidez, umidade e calor locais (Carvalho et al., 2021)
Vaginose bacteriana
- Não é uma infecção sexualmente transmissível clássica: ocorre quando a flora vaginal se desequilibra e bactérias anaeróbias substituem os lactobacilos
- Corrimento típico: fino, acinzentado ou branco, com aumento do volume
- Odor de “peixe”, mais forte após a relação sexual e durante a menstruação
- É a causa mais comum de corrimento vaginal na mulher em idade reprodutiva no mundo, segundo o CDC (Centers for Disease Control and Prevention, 2021) — tema aprofundado no artigo sobre vaginose bacteriana
Tricomoníase
- Causada pelo protozoário Trichomonas vaginalis e transmitida por relação sexual — é uma IST
- Corrimento típico: amarelado ou esverdeado, bolhoso (espumoso), com odor forte
- Acompanha-se de ardência, dor ao urinar, prurido e vermelhidão
- A OMS estima cerca de 156 milhões de novos casos por ano no mundo (Van Gerwen et al., 2023)
- Exige tratamento do parceiro para evitar reinfecção — você encontra mais detalhes no artigo sobre tricomoníase
Outras causas possíveis incluem cervicites por clamídia e gonococo, atrofia vaginal (mais comum após a menopausa), corpo estranho e dermatites de contato. Quando o corrimento vem acompanhado de dor pélvica persistente, é importante buscar avaliação para afastar doença inflamatória pélvica.
Quais sintomas merecem atenção?
Vale marcar uma avaliação quando o corrimento apresenta um ou mais destes sinais:
- Odor forte, especialmente “de peixe”
- Cor amarelada, esverdeada ou acinzentada
- Textura grumosa (tipo leite coalhado) ou bolhosa
- Coceira intensa ou persistente
- Ardência ao urinar ou dor durante a relação sexual
- Corrimento acompanhado de dor pélvica, febre ou sangramento fora do período
- Recorrência frequente ao longo do ano
É importante reforçar: a maioria desses quadros tem tratamento eficaz quando o diagnóstico é feito corretamente. O primeiro passo não é usar produtos de farmácia por conta própria, é entender a causa.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico de corrimento vaginal envolve três etapas:
- Anamnese. O médico pergunta sobre o início, as características do corrimento, o ciclo, o uso de medicamentos e a vida sexual.
- Exame ginecológico. Com espéculo, é possível visualizar o corrimento e o colo do útero.
- Testes complementares. Aferição do pH vaginal, teste de aminas (o “teste do cheiro”) e exame a fresco ao microscópio. Na vaginose bacteriana, o diagnóstico clínico usa os critérios de Amsel (pH > 4,5, corrimento homogêneo acinzentado, teste de aminas positivo e clue cells), conforme o Protocolo Brasileiro para IST 2020 (Carvalho et al., 2021). Na candidíase, o exame a fresco com hidróxido de potássio a 10% identifica leveduras. Em casos recorrentes, cultura ou testes moleculares ajudam a identificar o agente específico.
Em gestantes, a investigação do corrimento ganha ainda mais importância: algumas infecções estão associadas a complicações como o trabalho de parto prematuro, e por isso o exame é adaptado à etapa da gestação. A investigação também considera o contexto de cada mulher — gravidez, métodos contraceptivos, doenças crônicas e hábitos pessoais.
Evitar ducha vaginal ou qualquer produto antes da consulta é importante: eles podem mascarar os sintomas e atrapalhar o diagnóstico. As diretrizes do CDC desaconselham a ducha vaginal de rotina, porque ela altera a flora e está associada a maior risco de vaginose e outras infecções (Centers for Disease Control and Prevention, 2021).
Como é o tratamento com base em evidências?
O tratamento depende da causa identificada no diagnóstico — e é individualizado:
- Candidíase vulvovaginal: antifúngicos tópicos ou orais, escolhidos conforme o quadro e o contexto da paciente. Nos casos não complicados, esquemas curtos (de dose única a 3 dias) são eficazes para a maioria das mulheres, conforme as diretrizes do CDC (Centers for Disease Control and Prevention, 2021).
- Vaginose bacteriana: antibióticos específicos prescritos pelo médico (metronidazol ou clindamicina, por via oral ou vaginal), com orientação sobre o uso completo do esquema. O tratamento do parceiro não é recomendado, porque não reduz a recorrência em mulheres (Centers for Disease Control and Prevention, 2021).
- Tricomoníase: tratamento específico para IST, com tratamento simultâneo do parceiro para evitar reinfecção (Centers for Disease Control and Prevention, 2021).
- Cervicites por clamídia ou gonococo: esquemas antibióticos definidos por diretrizes, com controle de cura quando indicado.
A adesão ao esquema prescrito — mesmo quando os sintomas melhoram antes do fim — é o que garante a resposta completa e reduz o risco de recorrência. O ponto central é este: a maioria dos corrimentos vaginais tem tratamento eficaz e bem estabelecido na literatura. O que compromete o resultado é o autodiagnóstico e o uso de medicamentos sem indicação — que podem tratar a causa errada ou mascarar o quadro.
O que fazer diante do corrimento de repetição?
O corrimento que se repete várias vezes ao longo do ano é um cenário comum e, na maioria dos casos, controlável. No Brasil, a candidíase vulvovaginal recorrente é considerada recorrente quando há quatro ou mais episódios em 12 meses (FEBRASGO, 2026; Brasil, 2022). Na vaginose bacteriana, a recorrência costuma ser caracterizada por três ou mais episódios por ano (FEBRASGO, 2026).
A recorrência costuma estar ligada a causas de base que precisam ser investigadas em conjunto:
- Alterações do controle glicêmico (inclusive diabetes não diagnosticada ou mal controlada)
- Uso frequente de antibióticos por outros motivos
- Hábitos como ducha vaginal ou uso de produtos irritantes
- Espécies de Candida diferentes da albicans, que podem responder de forma distinta
- Reinfecção em casais, no caso de tricomoníase
Uma abordagem integral — que olha o quadro clínico, os hábitos e as condições de saúde da paciente — é o que permite controlar a recorrência. O tratamento não é único nem padronizado: ele é construído para cada pessoa, e o acompanhamento próximo, com reavaliação periódica, permite ajustar a conduta conforme a resposta e identificar precocemente novas recorrências.
Como prevenir corrimentos e infecções recorrentes?
Pequenas mudanças na rotina fazem diferença real na saúde íntima — e não exigem produtos caros nem tratamentos mirabolantes. Algumas medidas simples ajudam a manter a flora vaginal equilibrada e reduzem o risco de novas infecções:
- Evitar ducha vaginal: ela altera a flora e está associada a maior risco de vaginose e outras infecções (Centers for Disease Control and Prevention, 2021)
- Usar sabonete neutro ou específico para a região íntima, apenas externamente
- Preferir roupas íntimas de algodão e evitar permanecer com roupas úmidas ou apertadas por longos períodos
- Trocar absorventes e protetores diários com regularidade
- Usar preservativo nas relações, o que reduz o risco de ISTs como tricomoníase
- Manter o controle glicêmico adequado, quando houver indicação
- Usar antibióticos apenas com prescrição, já que o uso desnecessário favorece a candidíase
Essas medidas reduzem o risco, mas não eliminam a possibilidade de infecções — por isso, sinais persistentes merecem avaliação em vez de espera.
Quando procurar o ginecologista
O corrimento vaginal em si não costuma ser uma emergência. Mas há situações em que a avaliação é recomendada sem demora: sintomas que persistem por mais de alguns dias, odor forte e constante, corrimento com coceira intensa, dor pélvica, febre, sangramento fora do período, ou qualquer corrimento durante a gravidez — veja as orientações específicas em corrimento na gravidez.
Se você está em Taquara/RS ou região e quer avaliação com atendimento acolhedor e exclusivamente particular — presencial ou online —, a Dra. Daniela Correia está disponível para te atender e investigar o que está acontecendo com método, do sintoma à causa.
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Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não substitui a consulta médica. Em caso de sintomas persistentes, procure avaliação profissional.
Conteúdo revisado pela Dra. Daniela Correia — CRM-RS 48224 | RQE 37922.
Referências
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para atenção integral às pessoas com infecções sexualmente transmissíveis (IST). Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/pcdts/2022/ist/pcdt-ist-2022_isbn-1.pdf. Acesso em: 10 set. 2026.
- CANDIDÍASE e vaginose bacteriana de repetição desafiam diagnóstico e tratamento, alerta FEBRASGO. FEBRASGO, 2026. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/noticia/candidiase-e-vaginose-bacteriana-de-repeticao-desafiam-diagnostico-e-tratamento-alerta-febrasgo/. Acesso em: 10 set. 2026.
- CARVALHO, Newton Sergio de; ELEUTÉRIO JUNIOR, José; TRAVASSOS, Ana Gabriela; SANTANA, Lutigardes Bastos; MIRANDA, Angélica Espinosa. Protocolo brasileiro para infecções sexualmente transmissíveis 2020: infecções que causam corrimento vaginal. Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, v. 30, n. esp. 1, e2020593, 2021. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/ress/2021.v30nspe1/e2020593/. Acesso em: 10 set. 2026.
- CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Sexually transmitted infections treatment guidelines, 2021. Atlanta: CDC, 2021. Disponível em: https://www.cdc.gov/std/treatment-guidelines/default.htm. Acesso em: 10 set. 2026.
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Candidiasis (yeast infection). Genebra: OMS, 2025. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/candidiasis-(yeast-infection). Acesso em: 10 set. 2026.
- VAN GERWEN, Olivia T.; OPSTEEN, Skye A.; GRAVES, Keonte J.; MUZNY, Christina A. Trichomoniasis. Infectious Disease Clinics of North America, v. 37, n. 2, p. 245-265, 2023. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10713349/. Acesso em: 10 set. 2026.
Perguntas frequentes
Ter corrimento vaginal é normal?
Sim, na maioria dos casos. Um corrimento claro ou esbranquiçado, sem odor forte, que varia com o ciclo menstrual, é fisiológico. Ele passa a merecer avaliação quando muda de cor ou cheiro ou vem acompanhado de coceira, ardência ou dor.
Como saber se o corrimento é sinal de infecção?
Sinais como odor forte de peixe, cor amarelada ou esverdeada, textura grumosa, coceira intensa, ardência e dor pélvica indicam que vale uma avaliação. O diagnóstico correto depende de exame e não deve ser feito por conta própria.
Candidíase é uma IST? O parceiro precisa de tratamento?
A candidíase não é considerada uma infecção sexualmente transmissível na maioria dos casos, porque o fungo vive na flora vaginal. Parceiros assintomáticos geralmente não precisam de tratamento. Já na tricomoníase, que é uma IST, o tratamento do parceiro é essencial para evitar a reinfecção.
Ducha vaginal ou receita caseira ajudam a tratar o corrimento?
Não. Duchas e receitas caseiras não são comprovadas nem seguras: podem alterar a flora vaginal, mascarar os sintomas e até aumentar o risco de vaginose. O caminho adequado é o diagnóstico por um profissional de saúde.
Corrimento na gravidez exige mais cuidado?
Sim, o corrimento na gravidez merece avaliação, porque algumas infecções estão associadas a complicações como o trabalho de parto prematuro. Nem todo corrimento é emergência, mas a investigação deve ser orientada pela etapa da gestação.
O corrimento de repetição pode ser controlado?
Sim, na maioria dos casos. A recorrência costuma estar ligada a causas de base, como alterações da flora, hábitos e condições de saúde, que podem ser tratadas com uma abordagem integral e individualizada.
O corrimento com cheiro forte é sempre infecção?
Não necessariamente, mas merece avaliação. O odor forte, especialmente 'de peixe', é um sinal clássico de vaginose bacteriana — a causa mais comum de corrimento anormal na idade reprodutiva. Apenas o exame confirma o diagnóstico.
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